História
Muito antes de Marvila se tornar freguesia, em 1959, este território já guardava sinais de presença humana. Na Quinta da Farinheira foi encontrada uma placa de xisto ornamentada com cerca de 5 000 anos; há também vestígios romanos, incluindo uma necrópole na zona de Poço de Cortes, e elementos decorativos visigóticos no Vale de Chelas.
Em 1149, D. Afonso Henriques doou à Mitra de Lisboa terras e rendas de Marvila antes associadas a mesquitas muçulmanas. O documento aponta para uma possível origem árabe do topónimo, sem resolver a sua etimologia. No ano seguinte, a propriedade foi dividida e uma das partes deu origem a 31 courelas entregues aos cónegos da Sé. A partir do século XV, estas parcelas estiveram na origem de várias quintas.
Até ao século XIX, predominavam as quintas, os conventos e as casas de campo. O Palácio da Mitra, inicialmente uma casa de campo do século XVII e residência de prelados, teve cais próprio voltado para o Tejo. Depois do terramoto de 1755, algumas propriedades nobres foram abandonadas ou ganharam novos usos. As fábricas de estamparia instaladas em 1785 e 1786, seguidas pela adaptação de antigos espaços conventuais após 1834, anunciaram uma transformação mais profunda.
A chegada do caminho de ferro, em 1856, acelerou a industrialização. Fábricas, armazéns, aterros e linhas ferroviárias redesenharam a frente ribeirinha, embora a agricultura se mantivesse ativa até meados do século XX e abastecesse a Praça da Figueira e o Mercado da Ribeira. A indústria trouxe população trabalhadora e novas formas de habitação, incluindo pátios e vilas.
A partir de 1965, o Plano de Urbanização de Chelas introduziu habitação em grande escala e realojou populações de diferentes zonas de Lisboa. Consolidaram-se bairros como o Armador, Flamenga, Condado, Alfinetes, Lóios e Marquês de Abrantes. Desde a década de 1980, o fecho de indústrias e armazéns deixou marcas de abandono em parte da frente oriental, enquanto novas ocupações se foram instalando. Correr por Marvila é cruzar esta sequência sem linha reta: quintas, palácios, bairros, ferrovia e memória industrial surgem no mesmo território.